Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

O Conto

Era uma vez, dois amantes perdidos. Entendam-se por amantes dois apaixonados e por perdidos, desesperados. Os nomes dos protagonistas ninguém sabe, dizem por aí que possuem vários nomes. O que interessa?

 

Ambos jovens, estudantes universitários, no entanto, com objectivos diferentes na vida. Aliás, coisas em comum era o que eles tentavam encontrar à força, como quem tenta achar cerejas numa macieira. A mulher, sim, porque fazia questão de se afirmar como tal, vivia sozinha, coisa para a altura algo disparatada. A casa era estranha, pequena mas decorada até ao mais ínfimo pormenor de uma maneira muito peculiar e nada dentro da moda considerada na altura. Todavia sorria luz e convidava a entrar.

 

Como é que esta senhorita se sustenta e orienta vivendo sozinha e sem parentes conhecidos? Era a questão que mais atormentava e inquietava as vizinhas, testemunhas de toda a película. O dinheiro, ó o dinheiro! Que falta nos faz? E que falta nos faz a falta dele?! Assim continuavam os comentários, e como a maldade sempre foi amiga da falta que fazer, assim se difamava a moça. Com frases perdidas se ia dizendo que andava na má vida. Vê vizinha, ali vai ela, toda jeitosa, de certeza...Veio-se a saber um dia mais tarde, já a moça era uma puta, que o pai vivia fora e sustentava.

 

Quanto ao rapaz não há muito mais a comentar, a não ser que era de uma família de classe média com uma educação dura e conservadora onde não era aceitável que uma pessoa do seu sangue conversasse com uma mulher cuja educação era suis generes, e que vivia sozinha na solidão de uma casa. Porém isso não foi impedimento para os dois. Não existe impedimento quando o interesse entre um homem e uma mulher é verdadeiro. Tudo começa com um interesse.

 

Apaixonaram-se secretamente e passaram por maus bocados. Enfim chegou a Primavera, os pássaros piavam e só a beleza da natureza os encantava. Nada tem graça sem obstáculos, meu amor, diziam um para o outro. Ultrupassaram as barreiras e assim sem mais ou porquês eram namorados. Porque estas coisas do coração não têm causa ou razão. Porque quem ama nunca sabe o que ama, não sabe porque ama, nem o que é o amor.

 

Aos olhos da sociedade não passam de patetas enamorados. Aos olhos deles, ou cegueira de cada um, como quiserem, são muito mais que tudo. Vivem tão intensamente que tranquilidade é um vocábulo inexistente para ambos. Não fazem caso dos poemas de El-Reis, e o lugar ideal para amar, as nuvens, a lua, o universo e mais longe ainda.

 

Depois de perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, os dois apaixonados conseguiram o noivado. A ausência de grandes festejos, foi substituída por um simples jantar na casa dos progenitores do noivo, e assim trocaram as primeiras alianças.

 

Numa noite antiquíssima e eterna, num dos muitos encontros clandestinos, entre um desejo desmedido e uma escapadela fugaz à casa dela, ele morreu. Foi atropelado. E alguém os obrigou a esconder os rostos cobrindo-os com um pano indigno, a ele porque já não estava entre nós e especialmente entre ela, e à noiva porque sofria de ter de o deixar de ser. Mais que a dor que sentia era desespero, revolta, e tudo no mesmo tempo cruel.

 

Mas o amor é uma cousa estranha, e tem de tão desconhecido como de intenso. E a sua viuvez ainda não era uma solidão consentida. O noivo ainda ali estava, ainda a acariciava e a fazia sonhar. A sua cara estava esvaída, exausta, contudo tinha uma paz de dia findo e falava com ele como se o visse, como se o sentisse, como se ele estivesse ali. Enlouqueceu. Serena e feliz, possuía uma paz maluca conquistada a desepero, mas que força nenhuma podia mais perturbar. Acabou o curso, arranjou emprego, graças à influência do seu sogro que morria de piedade da desgraçada, e na realidade dos seus sonhos casou com a grandíloca paixão da sua vida e morte.

 

Na sua loucura amaram felizes para sempre.

 

 


publicado por Filipa às 15:17
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1 comentário:
De esperoquenao a 8 de Dezembro de 2009 às 17:20
O título não seria antes "Os Amantes"? Depois punhas o quadro "Os Amantes" de Magritte e isto, de certeza, que faria mais sentido.

Muito bem. Quase que ia chorando quando te referiste aos pais do jovem, como sendo "progenitores". Vistas bem as coisas somos todos uns animais e Deus é um realizador da BBC Vida Selvagem.

Adeus...


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