Domingo, 27 de Junho de 2010

Amanhã

Amanhã, lá, onde se projecta o futuro. Onde a certeza se transforma em névoa e nada sobre o hoje se sabe, nem sobre o sempre. Onde as incógnitas são habitantes e a ignorância é o conforto que as acomoda. Lá, não sabem bem onde, vivem mulheres…

 

Mulheres que o excesso de remédios transformara em sonâmbulas infantas defuntas, convulsionadas pelos escoriais dos seus fantasmas, sem qualquer bússola, sem qualquer direcção e pior, sem nenhum, absolutamente nenhum exemplo a seguir. Poderia ser a salvação delas, como acontece em muitas sociedades, mas nesta não havia salvação possível.

 

(Mas não haver salvação não é assim tão preocupante, a Humanidade perdida não é sinónimo de Fim do Mundo.)

 

E enquanto tudo, um escudo continua a ser um escudo e aparências continuam a ser necessárias.

 

Aos sábados, os salões de cabeleireiro abarrotavam. Os mesmos habitados de baratas, propunham às donas de casa em mal de imaginação soluções capilares imprevistas, a que retrosarias poeirentas dariam o toque final de soutiens de renda, mosquiteiros torácicos capazes de rejuvenescerem de erecções formidáveis vinte e cinco anos de resignação conjugal. Aos sábados entre o berro da ausência de café na mesa e o cheiro entranhado na pele a refogado (odores da fome e da miséria), aquelas mulheres garantiam uma ou duas boas fodas, dependia das ondas (do cabelo). E assim, estas mulheres todos os dias esperavam incessantemente mais do que um sábado, mais do que prazer, algo que também era uma incógnita. Esperavam, como espera um cego os olhos que encomendou pelo correio. Sem desespero ou ganância. Que sabem as mulheres de desespero?

 

O tempo de espera também é uma incógnita. E lá, ao domingo, vão á Igreja de manhã, e com muita Avé Maria se enchem de fé, mas de uma especial, e com muito Pai Nosso dizem mal do que é e do que não é, e enviam tudo para o caralho, sempre controladas, sempre meio adormecidas.

 

No caminho para casa, a única liberdade que têm, essa e a do pensamento, os seus espíritos enchem-se de coragem. Os seus pés sujos e mal tratados pisam a calçada, donas do Mundo, donas do Nada. Posto que o Mundo não existe…

 

Ao chegarem ao destino, dão de caras com os seus próprios fados que não desaparecem nem mil Avé Marias rezassem, nem mil vezes confiassem na bondade de Vossa Senhora. Levam porrada, porque o almoço atrasou ou simplesmente porque sim. Ficam tão negras…

 

Entre estalos, pontapés, socos, puxões de cabelo, violações, ficam negras… De alma; porque o corpo já está habituado.

 

Posteriormente entopem-se de medicamentos, a seguir nada importa mais, nem as nódoas negras, nem o filho da puta da qual nunca conheceram Amor, nem as crias, nem a Fé, nem a Alma, nem elas, nem as incógnitas, nem Amanhã.


publicado por Filipa às 13:48
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5 comentários:
De esperoquenao a 27 de Junho de 2010 às 18:00
Coitadinhas das mulheres...

Conselho: Mais leitura, menos televisão.


De Filipa a 27 de Junho de 2010 às 18:37
Há sempre quem não perceba ironia, ou quem não a queira perceber! Enfim...


De esperoquenao a 27 de Junho de 2010 às 19:11
Uff, a quem o dizes... É mesmo chato, não achas?


De Filipa a 27 de Junho de 2010 às 19:58
Não sejas infantil Edu!


De esperoquenao a 27 de Junho de 2010 às 20:10
Se eu fosse infantil tinha dito "O meu pai ganhava ao teu, caso se deparassem, por qualquer razão, num confronto físico. E eu já ponderei a hipótese do teu pai se chamar Clark Kent" em vez de ter usado o maduro e intelectual sarcasmo.


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